Arquivo da categoria: Uncategorized

Manter viva a causa do PT: para além do “Mensalão”

Leonardo Boff*

 

Há um provérbio popular alemão que reza: “você bate no saco mas pensa no animal que carrega o saco”. Ele se aplica ao PT com referência ao processo do “Mensalão”. Você bate nos acusados mas tem a intenção de bater no PT. A relevância espalhafatosa que o grosso da mídia está dando à questão, mostra que o grande interesse não se concentra na condenação dos acusados, mas através de sua condenação, atingir de morte o PT.

De saída quero dizer que nunca fui filiado ao PT. Interesso-me pela causa que ele representa pois a Igreja da Libertação colaborou na sua formulação e na sua realização  nos meios populares. Reconheço com dor que quadros importantes da direção do partido se deixaram morder pela mosca azul do poder e cometeram irregularidades inaceitáveis. Muitos sentimo-nos decepcionados, pois depositávamos neles a esperança de que seria possível resistir às seduções inerentes ao poder. Tinham a chance de mostrar um exercício ético do poder na medida em  que  este poder reforçaria o poder do povo que assim se faria participativo e democrático. Lamentavelmente houve a queda. Mas ela nunca é fatal. Quem cai, sempre pode se levantar. Com a queda não caiu a causa que o PT representa: daqueles que vem da grande tribulação histórica sempre mantidos no abandono e na marginalidade. Por políticas sociais consistentes, milhões foram integrados e se fizeram sujeitos ativos. Eles estão inaugurando um novo tempo que obrigará  todas as forças sociais a se reformularem e também a mudarem seus hábitos políticos.

Por que muitos resistem e tentam ferir letalmente o PT? Há muitas razões. Ressalto  apenas duas decisivas.

A primeira tem a ver com uma questão de classe social. Sabidamente temos elites econômicas eintelectuais das mais atrasadas do mundo, como soia repetir Darcy Ribeiro. Estão mais interessadas em defender privilégios do que garantir direitos para todos. Elas nunca se reconciliaram com o povo. Como escreveu o historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma no Brasil 1965,14) elas “negaram seus direitos, arrasaram sua vida e logo que o viram crescer, lhe negaram, pouco a pouco, a sua aprovação, conspiraram para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continuam achando que lhepertence”. Ora, o PT e Lula vem desta periferia. Chegaram democraticamente ao centro do poder. Essas elites tolerariam Lula no Planalto, apenas como serviçal, mas jamais como Presidente. Não conseguem digerir este dado inapagável. Lula Presidente  representa uma virada de magnitude histórica. Essas elites perderam. E nada aprenderam. Seu tempo passou. Continuam conspirando, especialmente, através de uma mídia e de seus analistas,  amargurados por sucessivas derrotas como se nota nestes dias, a propósito de uma entrevista montada de Veja contra Lula. Estes grupos sepropõem apear o PT do poder e  liquidar  com  seus líderes.

A segunda razão está em seu arraigado conservadorismo. Não quererem mudar, nem se ajustar ao novo tempo. Internalizaram a dialética do senhor e do servo. Saudosistas, preferem se alinhar de forma agregada e subalterna, como servos,  ao senhor que hegemoniza a atual fase planetária: os USA e seus aliados, hoje todos em crise de degeneração. Difamaram a coragem de um Presidente que mostrou a autoestima e a autonomia do país, decisivo para o futuro ecológico e econômico do mundo, orgulhoso de seu ensaio civilizatório racialmente ecumênico e pacífico. Querem um Brasil menor do que eles para continuarem a ter vantagens.

Por fim, temos esperança. Segundo Ignace Sachs, o Brasil, na esteira das políticas republicanas inauguradas pelo do PT e que devem ser ainda aprofundadas, pode ser a Terra da Boa Esperança, quer dizer, uma pequena antecipação do que poderá ser a Terra revitalizada, baixada da cruz e ressuscitada. Muitos jovens empresários, com outra cabeça, não sedeixam mais iludir pela macroeconomia neoliberal globalizada. Procuram seguir o novo caminho  aberto pelo PT e pelos aliados de causa. Querem produzir autonomamente para o mercado interno, abastecendo os milhões de brasileiros que buscam um consumo necessário, suficiente e responsável e assim poderem viver um desafogo com dignidade e decência. Essa utopia mínima é factível. O PT  se esforça por realizá-la. Essa causa não pode ser perdida em razão da férrea resistência de opositores  superados porque é sagrada demais pelo tanto de suor e de sangue que custou.

 

*Leonardo Boff é teólogo, filósofo, escritor e doutor honoris causa em politica pela Universidade de Turim por solicitação de Norberto Bobbio.

 

01

01

A biquinha d´água que quase secou…

A biquinha da estrada do Remanso é antiga. Dona Luzia se lembra que há 50 anos as mulheres costumavam lavar roupa no local. Todo o mundo pegava aí a água para beber.

Há algumas semanas, nós da Água Doce, que colocamos lá uma placa educativa mostrando aos moradores o valor da água e a necessidade de preservar as fontes, ficamos surpresos quando vimos que de repente já não saía água da torneira.

Pensamos que tinha sido desviada ou que o cano tinha quebrado.  Subimos a encosta e fomos ver a cisterna. Tiramos a tampa e pudemos ver que realmente, naquele dia, estava vazia. A água preciosa já não estava escorrendo da rocha e alimentando o reservatório.

Os moradores se revoltaram e ameaçaram denunciar a falta de água no Ministério Público.

Alguns dias depois, milagrosamente, a água voltou e está novamente correndo. O que será que aconteceu?

Um parque municipal para Magé?

Por que não pensar numa grande área verde preservada, com caminhos internos por onde se pode andar tranqüilo, em meio às árvores e flores, surpreendendo-se com o vôo inesperado de um pássaro ou a disparada de um pequeno animal?

Área disponível não falta. O que talvez falte é a consciência de que um parque natural é um valor, um bem que está fora do mercado, mas que é fundamental para o equilíbrio  de nosso território e o bem estar de nossa vida coletiva.

Os governantes alegam falta de recursos para desapropriação. Mas se atentarmos bem grande parte do município é área de ocupação ou com titulação duvidosa.

Tomemos a região entre a foz do rio Suruí e do rio Iriri. Há gente que tem direito por transferência, por usucapião ou por titulação pelo INCRA. Essas áreas eram em sua maioria de donatários do tempo da colônia ou de propriedade da igreja católica ou de ordens religiosas.

Diante da precariedade jurídica de tais propriedades a negociação torna-se mais fácil e a destinação da área para fins de preservação induz os moradores a serem mais cooperativos. Sem vontade política não se avança.

Por que estaria escrevendo isto? Porque antevejo que com o Comperj a região dos fundos da Baía de Guanabara vai sofrer um adensamento populacional nunca antes visto e um impacto ambiental negativo por causa das atividades industriais e comerciais decorrentes.

Pense somente o que pode significar o arco rodoviário que vai ligar Itaboraí a Itaguaí. Pense em todas as atividades industriais, comerciais e de serviços que se desenvolverão ao longo da rodovia. Pense na movimentação de cargas e de pessoas.

É bom começar a planejar que território queremos deixar para os que vierem depois de nós.

Waldemar Boff

Leonardo Boff participa da mesa de debates do Fórum de debates da Rio+20

Darlan Alvarenga Do G1, no Rio

“As propostas em discussão não garantem o futuro e podem, inclusive, provocar um grande cataclisma social e ambiental”, disse em entrevista ao G1, após participar de uma mesa de debates no Fórum de Sustentabilidade Empresarial da Rio+20, organizado pelo Pacto Global das Nações Unidas, que acontece no Windsor Barra Hotel.

Para o teólogo, sem uma mudança profunda do modelo econômico adotado pelos países – classificado por ele de “pacto de suicídio global”, pouco pode se esperar do documento final da conferência.

“Os chefes de estado são reféns de um tipo de economia e de desenvolvimento que já não está dando certo há muito tempo. Eles querem mais do mesmo, daí não vamos esperar soluções”, afirmou Boff.

Segundo ele, nem a chamada economia verde permite superar a manutenção de profundas desigualdades e criação de crises permanentes. “Somos vítimas de um fetiche que domina praticamente todos os documentos oficiais, que é o tipo de crescimento econômico que queremos que seja sustentável, mas que degrada a natureza e cria grandes desigualdades sociais”, disse em sua participação no fórum, citando que o número de pessoas que passavam fome no mundo passou de 860 milhões em 2007 para 1,4 milhão.

Para Boff, a esperança em torno da Rio+20 deve estar depositada nos debates envolvendo a sociedade civil. “As soluções têm de vir da humanidade e das empresas que entendem que o processo de mudança é importante”, afirmou. Na opinião dele, “para evitar uma catástrofe anunciada” é preciso revisar não só o modelo econômico como também promover e resgatar um modo de convivência mais solidária e cooperativa.

“Esses valores têm de ser reconhecidos e incluídos no nosso projeto e, com eles, temos que ter as sinergias suficientes para transformarmos uma catástrofe anunciada numa crise de passagem rumo a uma sociedade onde é menos difícil o amor e mais fácil convivermos juntos”, completou. Boff elogiou ainda o trabalho de cooperação desenvolvido pelo Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, que participou da mesma sessão de debates.

“Os pobres têm soluções para ajudar a superar a crise porque têm um grande capital social em termos de valores, sabem fazer a leitura do mundo e são os portadores dos novos sonhos e novas utopias”, disse.

RECICLAGEM E SEUS PERCALÇOS

Divulgação Interna: Assessoria de Sistemas da Qualidade da Diretoria de Administração e Finanças da Coppe/UFRJ RPS. 07/07/2006

Estamos acostumados a pensar que a reciclagem é a solução perfeita para as questões ambientais que afligem a sociedade moderna. Na verdade, dentro do esquema dos “3 erres” (reduzir, reusar e reciclar), a reciclagem vem na última posição – isso mesmo, em último lugar !

Como ponto de partida, os que buscam uma conscientização ambiental devem tomar atitudes que reduzam a demanda de matérias-primas para a fabricação dos mais diversos artefatos; evitar o desperdício é uma delas, e das mais acessíveis. Trata-se de um grande desafio de ordem educacional e cultural numa sociedade de consumo do descartável.

Há soluções tecnológicas que permitem a redução da quantidade de matéria-prima necessária hoje à fabricação de um produto: por exemplo, as latinhas de alumínio têm hoje menos 40% de massa que suas congêneres de 30 anos atrás; em outras palavras, consegue-se hoje fabricar mais latinhas com a mesma quantidade de alumínio que nos anos 1970, sem prejuízo da qualidade do produto.

Em segundo lugar, deve-se tentar empregar um determinado produto usado em outra finalidade, evitando exatamente o consumo de outros produtos ou matérias-primas. Um exemplo típico desta prática e o reaproveitamento de embalagens vazias, inclusive para finalidades diversas da destinação original.

O reuso possui uma característica peculiar, que é o baixo ou nulo consumo de energia e insumos para a sua realização, diferentemente do que ocorre com a reciclagem. Quando não há condições de reutilização (como no caso de um vidro quebrado), lança-se mão da reciclagem, que consome energia e insumos (água, mão-de-obra etc) para transformar o produto usado em novos artigos. Sendo muito melhor reciclar resíduos do que descartá-los no meio-ambiente, poluindo-o.

A reciclagem se enquadra, como os demais aspectos da questão ambiental, num contexto interdisciplinar: ela tem como grande vantagem a redução do consumo energético frente à fabricação do mesmo produto a partir de fontes primárias. A questão do consumo energético prende-se à disponibilidade a partir de fontes fósseis, que são limitadas – petróleo, carvão, gás natural; da energia nuclear, grande geradora de resíduos perigosos, e da energia de origem hidrelétrica, que é dependente do ciclo da água, que sofre com as alterações climáticas que pairam sobre o planeta atualmente.

Por isso as indústrias em geral vem dando muita atenção à reciclagem, inserida no escopo “atuação responsável”, cuja filosofia adota procedimentos de melhoria contínua em vários ramos da atividade industrial, com destaque para a redução na emissão de efluentes, controle de resíduos (geração e reciclagem), saúde e segurança no trabalho. Assim, todo o ciclo de vida de um produto químico é cuidadosamente analisado para evitar riscos ao meio ambiente, sendo a reciclagem uma alternativa.

A arte da reciclagem é mais complexa do que parece à primeira vista. Não se trata simplesmente de jogar plásticos, embalagens de aço, alumínio, papéis etc em um determinado processo. Há diversas precauções a serem tomadas quando se deseja empreender um negócio neste ramo.

Nota de esclarecimento do Comitê Facilitador da Sociedade Civil Brasileira para a Rio+20 (CFSC) sobre a participação nos Diálogos para o Desenvolvimento Sustentável, reuniões preparatórias à Rio+20 oficial organizadas pelo governo brasileiro.

A propósito do convite feito pelo governo brasileiro ao Comitê Facilitador da Sociedade Civil para a Rio+20 (CFSC) para participarmos dos Diálogos para o Desenvolvimento Sustentável (DDS), a ser realizado entre os dias 16 e 19 de junho, informamos que:

Ao longo das últimas décadas, as redes e entidades que compõem o CFSC e realizam a Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental lutaram e seguem lutando nos dias de hoje pela abertura de espaços de participação e diálogo visando a conquista de políticas públicas que façam avançar a democratização no âmbito dos Estados, a justiça social e ambiental, e a distribuição da renda e riqueza.

Por meio da participação social e do diálogo sociedade-governo, conquistamos importantes vitórias expressas em alguns programas e políticas que atendem, ainda que timidamente, as demandas históricas dos povos de combate às desigualdades. Acreditamos e investimos, portanto, no diálogo como um dos métodos fundamentais para fazer avançar nossas demandas. Seguiremos na busca por estabelecer diálogos visando pressionar os governos a atender nossas demandas.

Em nossa avaliação, o método estabelecido pelos DDS não recolhe essa dinâmica de diálogo que temos tentado fazer avançar. A proposta dos DDS foi estabelecida de cima para baixo, tendo o governo brasileiro escolhido os temas, os participantes e os facilitadores, indicando de forma inequívoca que os diálogos e seus resultados serão controlados pelo governo. Conscientes de que os temas em debate são objetos de conflito e de visões muito heterogêneas, um método que visa definir três recomendações por tema, que ainda por cima serão escolhidas de forma fechada, seguramente significará a realização de escolhas excludentes em um ambiente onde não temos mecanismos efetivos de influenciar o processo decisório.

A Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental é um espaço autônomo, situado no campo crítico em relação à agenda da conferência oficial e das corporações. Temos posições de resistência e temos propostas em todos os temas estabelecidos pelos DDS, que expressam os acúmulos das organizações e dos movimentos sociais brasileiros e internacionais que lutam por direitos, por justiça ambiental e contra as desigualdades no Brasil e no mundo.

Pelas razões até aqui expostas, não participaremos dos Diálogos para o Desenvolvimento Sustentável. Faremos nossas visões serem conhecidas e escutadas por meio de todos os meios de comunicação possíveis. Esperamos, assim, que as vozes e propostas dos povos que estarão representadas na Cúpula dos Povos possam ser ouvidas pela sociedade e pelos chefes de Estado presentes na Rio+20.

Comitê Facilitador da Sociedade Civil na Rio+20.
Rio de janeiro, 02 de maio de 2012

Cúpula dos Povos acontecerá paralelamente à Rio+20

A partir de hoje, segunda-feira (02), estão abertas as inscrições de atividades para a Cúpula dos Povos, evento que acontecerá entre os dias 15 e 23 de junho, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, paralelamente à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.

As atividades devem seguir três eixos: denunciar as causas estruturais das crises, das falsas soluções e das novas formas de reprodução do capital; discutir soluções e novos paradigmas dos povos; e pensar agendas, campanhas e mobilizações que articulem os processos da luta anticapitalista pós-Rio+20 – evento que, por sua vez, acontecerá entre os dias 13 e 22 de junho, com representantes dos 193 Estados que fazem parte da Organização das Nações Unidas (ONU).

De acordo com a organização, “a Cúpula dos Povos quer, assim, transformar o momento da Rio+20 numa oportunidade para tratar dos graves problemas enfrentados pela humanidade e demonstrar a força política dos povos organizados”.

Organização

O local escolhido para realização da Cúpula dos Povos é o mesmo onde, há 20 anos, ocorreu o Fórum Global, um encontro histórico que reuniu milhares de militantes das causas socioambientais durante a Rio-92.

O evento deve reunir cerca de dez mil pessoas de todo o mundo. Foram disponibilizados alojamentos nas proximidades do Aterro do Flamengo, nos Centros Integrados de Educação Pública (CIEP) Tancredo Neves e José Pedro Varela e nas novas instalações dos camarotes do Sambódromo. Também foram oferecidos um galpão de 5 mil m² na Praça Mauá e um terreno de 16 mil m² na região do Cais do Porto.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br/content/c%C3%BApula-dos-povos-acontecer%C3%A1-paralelamente-%C3%A0-rio20

 

A RIO+20

Leonardo Boff -Teólogo e Filósofo

A RIO + 20

Notícia Postada em 04/05/2012

Por Mariana Kaoos e Rafael Flores

O Rebucetê: Sobre a Conferencia do Rio + 20 (saiba mais aqui), qual a importância de se estabelecer um espaço de discussões populares através da Cúpula dos Povos?

Leonardo Boff: A Rio + 20 é muito importante, pois será o primeiro grande balanço depois de vinte anos da Cúpula da Terra, no Rio de Janeiro em 1992. Esta é a oportunidade para avaliar se cresceu a consciência mundial sobre os problemas ecológicos, se as ciências evoluíram nas discussões a respeito do clima e da bio-diversidade, ou se em termos de ações foram feitas poucas coisas. Sobre o aquecimento global, particularmente, nada foi feito.

Então, a Rio+20 é uma das últimas tentativas de fazer algo global que efetivamente ataque os três temas que são colocados.

O primeiro é garantir a sustentabilidade, um tipo de desenvolvimento que se componha com o meio ambiente.

O segundo é a governança global, pois agora não existe um centro de poder em função da humanidade. Existe o poder hegemônico vindo dos Estados Unidos da América, que acaba impondo sua vontade ao resto do mundo, mas agora, com o agravamento dos problemas, se exige um centro de poder multi polar que coordene o nível da terra.

E, o terceiro e último, é a proposição extremamente ambígua que deve ser analisada com muito cuidado, a economia verde. Através da economia verde o capitalismo pode se sobressair colocando preço em todas as coisas da natureza, especialmente naqueles bens de consumo que dizem respeito a toda a humanidade, como água, solos, sementes e alimentação. A tese que eles sustentam é que colocando um preço nesses “produtos”, o consumo diminuirá. Porém, os bens de serviço que pertencem a vida não são mercadoria, são sagrados, então, acredito que vai haver uma discussão em torno da economia verde abordando o que é possível preservar na terra, como os microorganismos do solo, as florestas, as águas purificadas e assim por diante.

OR: Nesse propósito a sociedade civil esta bem organizada?

LB: Bom, eu penso que não vamos esperar nada da reunião oficial. Isto porque os principais chefes de estado já comunicaram que não vem. Então se aqueles que devem tomar decisões não vem, todos os demais países se sentem desestimulados e o argumento básico é: “nós que estamos em crise precisamos de dinheiro e não temos como dar dinheiro”. Agora aí é um problema ético de fundo: o que conta mais é o sistema financeiro dos capitais ou a perpetuação de vida no planeta?

Eles optaram pelo sistema de fundo e não pela vida e pelo planeta, o que é um grave erro e a humanidade vai pagar muito caro por isso. Então desse lado oficial não virão soluções, talvez um ou outra declaração no máximo.

No entanto, esperamos muito da Cúpula dos Povos, pois aí vem gente do mundo inteiro que não vem trazer palestras e discursos e sim trocar experiências de como plantar, como tratar as sementes, com criar casas mais sustentáveis, etc.

Essas mil experiências do mundo todo mostram que podemos organizar o consumo, o mundo e a economia de outra forma. E aí eu acho que podem sair coisas muito interessantes, que podem ser assumidas por vários países e grupos mundiais, as quais podem ser implementadas por prefeituras, estados, que tomam aquilo como orientação e já começam a aplicar e ai sim podemos esperar que avancemos na consciência e nas práticas.

OR: O Congresso Brasileiro aprovou a proposta de um código florestal que dá preferência ao agronegócio em detrimento de uma economia agrícola sustentável. Na sua opinião, quais os desdobramentos dessa opção aprovada na Câmara e no Senado??

LB: Eu espero sinceramente que a presidente Dilma vete tudo. Eu e várias outras pessoas como Marina Silva, Gilberto Gil e outros artistas encaminhamos via twitter a campanha Veta Dilma.

Queremos com isso pressionar a presidenta em relação ao código florestal. O código em si é hostil à vida, hostil à humanidade, ele só visa interesse econômico. Para os grandes proprietários e os que estão interessados na aprovação do código as florestas rendem muito mais derrubadas do que quando em pé.

Então isso tudo na verdade é uma avaliação, uma convalidação da agressividade do agronegócio. Em vez de recuperar os 20 milhões de hectares de terras que foram devastadas, eles só querem devastar mais ainda.

Para eles é muito mais barato, rentoso e mais fácil derrubar as florestas não para plantar soja, como alegam, mas para a criação e gado. Então eu acredito que o código é um dos retrocessos maiores da nossa história, é a visão da estupidez. Então o código tem uma visão econômica, não tem visão ecológica. É algo que precisa ser denunciado e resistido, e caso ele seja aprovado de alguma maneira, a luta tem que continuar porque precisamos salvar as coisas que interessam não só ao Brasil, mas que dizem respeito a sobrevivência da humanidade.
OR: Como o senhor avalia o acirramento das sucessivas expulsões de comunidades tradicionais do seu local de vivência. Como exemplo o que ocorreu com o povo do Xingu no Norte e na comunidade quilombola Rio dos Macacos na Bahia?

LB: Olha, primeiro quero saudar a vitória dos Pataxós do sul de Minas. O Supremo Tribunal deu o direito e devolveu as terras que são legitimas deles. Então a luta dos indígena, que são os povos originários daqui e que foram quase todos exterminados pela ganância dos colonizadores, eles tem o direito nativo de lutar por suas terras e reconhecer a compreensão singular que eles tem dela. Nós, brancos da cultura ocidental e dominante, entendemos a terra como meio de produção pra plantar, colher, etc enquanto eles entendem a terra como prolongamento do corpo.

Por isso os índios precisam de grandes espaços para fazer seus ritos, essa profunda comunhão com a natureza que nós perdemos , então isso tem que ser preservado. Acho que temos de apoiar a luta deles e se há um grupo hoje no mundo tanto no Brasil e na América Latina, que deve ser revisitado são eles porque eles tem a chave da solução do problema mundial, pois é uma nova relação com a natureza, não de exploração, mas a natureza grande mas que nos dá tudo que precisamos e que devemos tratá-la não com agressão e violência, mas com respeito e preservação.

Então eles tem muitos valores comunitários, ecológicos, que são fundamentais pra gente, então é importante revisitá-los e manter que eles estejam fisicamente vivos, mantenham sua cultura, suas línguas, seus ritos, isso é a grandeza de uma cultura e por isso a legitimidade de suas lutas.

Fonte: http://pmvc.ba.gov.br/festivaldajuventude/noticia/58/O-Rebucete-Entrevista:-Leonardo-Boff.html

 

Sustentabilidade e Educação

Leonardo Boff – Teólogo e Filósofo

A sustentabilidade, um dos temas entrais da Rio+20, não acontece mecanicamente. Resulta de um processo de educação pela qual o ser humano redefine o feixe de relações que entretém com o Universo, com a Terra, com a natureza, com a sociedade e consigo mesmo dentro dos critérios de equilíbrio ecológico, de respeito e amor à Terra e à comunidade de vida, de solidariedade para com as gerações futuras e da construção de uma democracia sócio-ecológica sem fim.

Estou convencido de que somente uma processo generalizado de educação pode criar novas mentes e novos corações, como pedia a Carta da Terra, capazes de fazer a revolução paradigmática exigida pelo risco global sob o qual vivemos. Como repetia com freqüência Paulo Freire:”a educação não muda o mundo mas muda as pessoas que vão mudar o mundo”. Agora todas as pessoas são urgidas a mudar. Não temos outra alternativa: ou mudamos ou conheceremos a escuridão.

Não cabe aqui abordar a educação em seus múltiplos aspectos tão bem formulados em 1996 pela UNESCO: aprender a conhecer, a fazer, a ser e a viver juntos; eu acrescentaria aprender a cuidar da Mãe Terra e de todos os seres.
Mas este tipo de educação é ainda insuficiente. A situação mudada do mundo exige que tudo seja ecologizado, isto é, cada saber deve prestar a sua colaboração a fim de proteger a Terra, salvar a vida humana e o nosso projeto planetário. Portanto, o momento ecológico deve atravessar todos os saberes.

A 20 de dezembro de 2002 a ONU aprovou uma resolução proclamando os anos de 2005-2014 a Década da educação para o desenvolvimento sustentável. Neste documento se definem 15 perspectivas estratégicas em vista de uma educação para sustentabilidade. Referiremos algumas:
Perspectivas socioculturais que incluem: direitos humanos, paz e segurança; igualdade entre os sexos; diversidade cultural e compreensão intercultural; saúde; AIDS; governança global.
Perspectivas ambientais que comportam: recursos naturais (água, energia, agricultura e biodiversidade); mudanças climáticas; desenvolvimento rural; urbanização sustentável; prevenção e mitigação de catástrofes.

Perspectivas econômicas que visam: a redução da pobreza e da miséria; a responsabilidade e a prestação de contas das empresas.
Como se depreende, o momento ecológico está presente em todas as disciplinas: caso contrário não se alcança uma sustentabilidade generalizada. Depois que irrompeu o paradigma ecológico, nos conscientizamos do fato de que todos somos ecodependentes. Participamos de uma comunidade de interesses com os demais seres vivos que conosco compartem a biosfera. O interesse comum básico é manter as condições para a continuidade da vida e da própria Terra, tida como Gaia. É o fim último da sustentabilidade.

A partir de agora a educação deve impreterivelmente incluir as quatro grandes tendências da ecologia: a ambiental, a social, a mental e a integral ou profunda (aquela que discute nosso lugar na natureza). Mais e mais se impõem entre os educadores esta perspectiva: educar para o bem viver que é a arte de viver em harmonia com a natureza e propor-se repartir equitativamente com os demais seres humanos os recursos da cultura e do desenvolvimento sustentável.
Precisamos estar conscientes de que não se trata apenas de introduzir corretivos ao sistema que criou a atual crise ecológica mas de educar para sua transformação. Isto implica superar a visão reducionista e mecanicista ainda imperante e assumir a cultura da complexidade.

Ela nos permite ver as interrelações do mundo vivo e as ecodependências do ser humano. Tal verificação exige tratar as questões ambientais de forma global e integrada. Deste tipo de educação se deriva a dimensão ética de responsabilidade e de cuidado pelo futuro comum da Terra e da humanidade.
Faz descobrir o ser humano como o cuidador de nossa Casa Comum e o guardião de todos seres. Queremos que a democracia sem fim (Boaventura de Souza Santos) assuma as características socioecológicas pois só assim será adequada à era ecozóica e responderá às demandas do novo paradigma. Ser humano, Terra e natureza se pertencem mutuamente. Por isso é possível forjar um caminho de convivência pacífica. É o desafio da educação.