Arquivo mensal: setembro 2012

Manter viva a causa do PT: para além do “Mensalão”

Leonardo Boff*

 

Há um provérbio popular alemão que reza: “você bate no saco mas pensa no animal que carrega o saco”. Ele se aplica ao PT com referência ao processo do “Mensalão”. Você bate nos acusados mas tem a intenção de bater no PT. A relevância espalhafatosa que o grosso da mídia está dando à questão, mostra que o grande interesse não se concentra na condenação dos acusados, mas através de sua condenação, atingir de morte o PT.

De saída quero dizer que nunca fui filiado ao PT. Interesso-me pela causa que ele representa pois a Igreja da Libertação colaborou na sua formulação e na sua realização  nos meios populares. Reconheço com dor que quadros importantes da direção do partido se deixaram morder pela mosca azul do poder e cometeram irregularidades inaceitáveis. Muitos sentimo-nos decepcionados, pois depositávamos neles a esperança de que seria possível resistir às seduções inerentes ao poder. Tinham a chance de mostrar um exercício ético do poder na medida em  que  este poder reforçaria o poder do povo que assim se faria participativo e democrático. Lamentavelmente houve a queda. Mas ela nunca é fatal. Quem cai, sempre pode se levantar. Com a queda não caiu a causa que o PT representa: daqueles que vem da grande tribulação histórica sempre mantidos no abandono e na marginalidade. Por políticas sociais consistentes, milhões foram integrados e se fizeram sujeitos ativos. Eles estão inaugurando um novo tempo que obrigará  todas as forças sociais a se reformularem e também a mudarem seus hábitos políticos.

Por que muitos resistem e tentam ferir letalmente o PT? Há muitas razões. Ressalto  apenas duas decisivas.

A primeira tem a ver com uma questão de classe social. Sabidamente temos elites econômicas eintelectuais das mais atrasadas do mundo, como soia repetir Darcy Ribeiro. Estão mais interessadas em defender privilégios do que garantir direitos para todos. Elas nunca se reconciliaram com o povo. Como escreveu o historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma no Brasil 1965,14) elas “negaram seus direitos, arrasaram sua vida e logo que o viram crescer, lhe negaram, pouco a pouco, a sua aprovação, conspiraram para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continuam achando que lhepertence”. Ora, o PT e Lula vem desta periferia. Chegaram democraticamente ao centro do poder. Essas elites tolerariam Lula no Planalto, apenas como serviçal, mas jamais como Presidente. Não conseguem digerir este dado inapagável. Lula Presidente  representa uma virada de magnitude histórica. Essas elites perderam. E nada aprenderam. Seu tempo passou. Continuam conspirando, especialmente, através de uma mídia e de seus analistas,  amargurados por sucessivas derrotas como se nota nestes dias, a propósito de uma entrevista montada de Veja contra Lula. Estes grupos sepropõem apear o PT do poder e  liquidar  com  seus líderes.

A segunda razão está em seu arraigado conservadorismo. Não quererem mudar, nem se ajustar ao novo tempo. Internalizaram a dialética do senhor e do servo. Saudosistas, preferem se alinhar de forma agregada e subalterna, como servos,  ao senhor que hegemoniza a atual fase planetária: os USA e seus aliados, hoje todos em crise de degeneração. Difamaram a coragem de um Presidente que mostrou a autoestima e a autonomia do país, decisivo para o futuro ecológico e econômico do mundo, orgulhoso de seu ensaio civilizatório racialmente ecumênico e pacífico. Querem um Brasil menor do que eles para continuarem a ter vantagens.

Por fim, temos esperança. Segundo Ignace Sachs, o Brasil, na esteira das políticas republicanas inauguradas pelo do PT e que devem ser ainda aprofundadas, pode ser a Terra da Boa Esperança, quer dizer, uma pequena antecipação do que poderá ser a Terra revitalizada, baixada da cruz e ressuscitada. Muitos jovens empresários, com outra cabeça, não sedeixam mais iludir pela macroeconomia neoliberal globalizada. Procuram seguir o novo caminho  aberto pelo PT e pelos aliados de causa. Querem produzir autonomamente para o mercado interno, abastecendo os milhões de brasileiros que buscam um consumo necessário, suficiente e responsável e assim poderem viver um desafogo com dignidade e decência. Essa utopia mínima é factível. O PT  se esforça por realizá-la. Essa causa não pode ser perdida em razão da férrea resistência de opositores  superados porque é sagrada demais pelo tanto de suor e de sangue que custou.

 

*Leonardo Boff é teólogo, filósofo, escritor e doutor honoris causa em politica pela Universidade de Turim por solicitação de Norberto Bobbio.

 

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A biquinha d´água que quase secou…

A biquinha da estrada do Remanso é antiga. Dona Luzia se lembra que há 50 anos as mulheres costumavam lavar roupa no local. Todo o mundo pegava aí a água para beber.

Há algumas semanas, nós da Água Doce, que colocamos lá uma placa educativa mostrando aos moradores o valor da água e a necessidade de preservar as fontes, ficamos surpresos quando vimos que de repente já não saía água da torneira.

Pensamos que tinha sido desviada ou que o cano tinha quebrado.  Subimos a encosta e fomos ver a cisterna. Tiramos a tampa e pudemos ver que realmente, naquele dia, estava vazia. A água preciosa já não estava escorrendo da rocha e alimentando o reservatório.

Os moradores se revoltaram e ameaçaram denunciar a falta de água no Ministério Público.

Alguns dias depois, milagrosamente, a água voltou e está novamente correndo. O que será que aconteceu?

Um parque municipal para Magé?

Por que não pensar numa grande área verde preservada, com caminhos internos por onde se pode andar tranqüilo, em meio às árvores e flores, surpreendendo-se com o vôo inesperado de um pássaro ou a disparada de um pequeno animal?

Área disponível não falta. O que talvez falte é a consciência de que um parque natural é um valor, um bem que está fora do mercado, mas que é fundamental para o equilíbrio  de nosso território e o bem estar de nossa vida coletiva.

Os governantes alegam falta de recursos para desapropriação. Mas se atentarmos bem grande parte do município é área de ocupação ou com titulação duvidosa.

Tomemos a região entre a foz do rio Suruí e do rio Iriri. Há gente que tem direito por transferência, por usucapião ou por titulação pelo INCRA. Essas áreas eram em sua maioria de donatários do tempo da colônia ou de propriedade da igreja católica ou de ordens religiosas.

Diante da precariedade jurídica de tais propriedades a negociação torna-se mais fácil e a destinação da área para fins de preservação induz os moradores a serem mais cooperativos. Sem vontade política não se avança.

Por que estaria escrevendo isto? Porque antevejo que com o Comperj a região dos fundos da Baía de Guanabara vai sofrer um adensamento populacional nunca antes visto e um impacto ambiental negativo por causa das atividades industriais e comerciais decorrentes.

Pense somente o que pode significar o arco rodoviário que vai ligar Itaboraí a Itaguaí. Pense em todas as atividades industriais, comerciais e de serviços que se desenvolverão ao longo da rodovia. Pense na movimentação de cargas e de pessoas.

É bom começar a planejar que território queremos deixar para os que vierem depois de nós.

Waldemar Boff